Jornadas Científicas dos 30 anos do Tribunal de Contas marcam debate sobre justiça financeira

No âmbito das Jornadas Científicas comemorativas dos 30 anos da criação legal do Tribunal de Contas de Angola, o professor doutor Carlos Maria Feijó defendeu o reforço do controlo jurisdicional das políticas públicas, sublinhando o papel dos tribunais na salvaguarda dos direitos fundamentais e na fiscalização da actuação do Estado.

Jurista e professor associado da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, o académico abordou o tema “O controlo jurisdicional das políticas públicas”, numa intervenção marcada pela análise jurídica, reflexão histórica e abordagem crítica sobre os desafios do Estado de Direito em Angola.

Durante a sua exposição, Carlos Feijó recordou o processo que antecedeu a consagração constitucional do Tribunal de Contas de Angola, salientando que a institucionalização do órgão resultou de reflexões jurídicas anteriores à Constituição de 1992.

“Celebrar os 30 anos do Tribunal de Contas é também reconhecer o percurso de consolidação de um dos pilares fundamentais do Estado de Direito”, afirmou.

O académico definiu políticas públicas como programas de acção governamental juridicamente enquadrados e orientados para objectivos socialmente relevantes, defendendo que estas representam instrumentos essenciais para a concretização dos direitos dos cidadãos.

Na sua abordagem, o jurista apresentou as duas principais correntes doutrinárias sobre o controlo jurisdicional das políticas públicas. A primeira sustenta que os tribunais não devem interferir em decisões políticas dos órgãos eleitos, enquanto a segunda admite a intervenção judicial sempre que estejam em causa direitos fundamentais.

Carlos Feijó alinhou-se com esta última posição, considerando que “a não implementação ou a execução deficiente de políticas públicas pode constituir violação de direitos fundamentais”, legitimando, por isso, a actuação dos tribunais.

O professor esclareceu, contudo, que o controlo jurisdicional não deve incidir sobre a conveniência política das decisões, mas sobre a sua conformidade com a Constituição, a lei e os princípios jurídicos aplicáveis.

Na conferência, destacou igualmente o papel do Tribunal de Contas no controlo externo da administração pública, sobretudo no acompanhamento da execução orçamental e da gestão dos recursos públicos.

Segundo o especialista, por estarem directamente ligadas à utilização de dinheiros públicos, as políticas públicas devem ser avaliadas à luz dos princípios da legalidade, eficiência e sustentabilidade financeira.

A intervenção reservou ainda espaço para a análise do papel do Ministério Público na defesa da legalidade e dos direitos fundamentais. O académico defendeu uma actuação mais proactiva daquela instituição na fiscalização das políticas públicas, particularmente nos sectores da educação, saúde e inclusão social.

No domínio processual, Carlos Feijó apontou mecanismos jurídicos capazes de viabilizar o controlo jurisdicional das políticas públicas, entre os quais a acção de condenação à prática de acto devido, os processos de impugnação de normas administrativas e a acção popular administrativa.

Ao encerrar a intervenção, o jurista alertou para a necessidade de equilíbrio entre o controlo jurisdicional e o respeito pelo princípio da separação de funções do Estado.

“O papel do juiz não é substituir-se ao decisor político, mas assegurar que a actuação pública respeita os parâmetros constitucionais e legais”, concluiu.

A conferência foi considerada um dos momentos centrais das Jornadas Científicas promovidas pelo Tribunal de Contas, contribuindo para o debate sobre a modernização do controlo externo, o fortalecimento institucional e a promoção da boa governação e da justiça financeira em Angola.

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