O jornalista da Rádio Nacional de Angola (RNA), Ernesto Samaria, questionou o rigor jornalístico da Rádio Essencial após a recente entrevista concedida pela empresária Isabel dos Santos, filha do antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos.
Numa publicação feita na sua página do Facebook, Ernesto Samaria manifestou preocupação com a condução da entrevista e com o papel desempenhado pelo jornalista em situações que envolvem figuras públicas e assuntos de elevado interesse nacional.
“Depois de ouvir a recente entrevista de Isabel dos Santos, fiquei com uma inquietação que vai além do conteúdo em si e toca diretamente na prática jornalística: o papel do jornalista não se esgota na escuta”, escreveu.
Segundo o profissional, a entrevista foi marcada por críticas recorrentes dirigidas ao Presidente da República, João Lourenço, ao Executivo e a diversas instituições do Estado.
Para Ernesto Samaria, em contextos desta natureza, o jornalismo deve ir além da simples abertura para diferentes discursos, exigindo também rigor no escrutínio, no contraditório e na contextualização das afirmações apresentadas.
“Mais do que a quantidade de vezes que determinadas figuras são mencionadas, o ponto central está na qualidade do tratamento editorial dado às alegações. Isto é: como é que o jornalismo lida com acusações potencialmente graves quando estas são colocadas em antena?”, questionou.
O jornalista defendeu que o debate não deve centrar-se na limitação de vozes ou narrativas, mas sim na necessidade de estabelecer uma fronteira clara entre dar voz aos intervenientes e proporcionar um espaço sem a devida mediação crítica.
“Não se trata de limitar vozes ou narrativas. Trata-se de definir com clareza a fronteira entre dar voz e dar palco sem mediação crítica suficiente”, sublinhou.
Na conclusão da sua reflexão, Ernesto Samaria lançou um desafio ao debate público sobre a prática jornalística no país.
“O debate que fica é este: estamos perante um exercício de jornalismo crítico ou perante um formato que, na prática, amplifica narrativas políticas sem o devido nível de escrutínio?”, concluiu.