O jornalista e jurista angolano Lucas Pedro vai lançar, em Agosto próximo, em Luanda e Lisboa, a obra “A verdadeira origem do massacre do 27 de Maio de 1977”, um livro que promete reacender o debate sobre uma das mais violentas e traumáticas repressões políticas da história de Angola.
Fonte: Imparcial Press
A obra, editada pela Independent Graphic, será lançada em Luanda e Lisboa, em homenagem às vítimas dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, incluindo mortos, sobreviventes, órfãos e famílias enlutadas, segundo informações divulgadas pelo autor.
Dividido em menos de dez capítulos, o livro constitui a terceira publicação do também porta-voz da Fundação 27 de Maio e resulta de uma investigação desenvolvida ao longo de mais de quatro anos.
“Finalmente, já temos a obra concluída. Já está na gráfica. Daqui a pouco vamos receber os dois mil exemplar e colocar a disposição dos leitores”, afirmou o autor, acrescentando que o livro presta também homenagem ao general José Adão Fragoso e à sua mãe, Nzuzi Maria Ndembo, ambos falecidos em Maio de 2021.
Na obra, Lucas Pedro sustenta que os acontecimentos de 27 de Maio devem ser analisados à luz do contexto político africano da década de 1970, marcado por golpes de Estado e assassinatos de presidentes próximos da liderança angolana.
Segundo o autor, os assassinatos de dirigentes da República do Congo-Brazzaville e da Nigéria [Marien Ngouabi e Murtala Mohammed], que mantinham relações políticas com o MPLA e com o então Presidente António Agostinho Neto, terão influenciado o endurecimento da resposta do regime angolano aos alegados “fraccionistas”.
“A política é uma arte que exige responsabilidade”, escreve Lucas Pedro, defendendo que discursos radicais e decisões emocionais por parte de altos responsáveis políticos contribuíram para o desencadear da repressão que se seguiu aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977.
O autor considera António Agostinho Neto “o principal responsável” pela tragédia, argumentando que “muitas mortes poderiam ter sido evitadas” caso tivesse prevalecido maior ponderação política.
Embora o MPLA reconheça oficialmente pouco mais de 30 mil mortos, Lucas Pedro refere estimativas superiores a 80 mil vítimas durante a repressão que se prolongou até agosto de 1979, semanas antes da morte de Neto.
Ao longo da obra, o autor procura ainda analisar os testemunhos de sobreviventes e o ambiente político da época, defendendo que os verdadeiros motivos que conduziram às medidas repressivas “ainda não foram suficientemente debatidos”.
“O resto da história já é quase do domínio público. As vítimas são conhecidas, os sobreviventes existem e muitos dos executores ainda estão vivos”, escreve.
Lucas Pedro conclui evocando o lema da Fundação 27 de Maio: “Perdoar, sim
Mas esquecer, nunca!”.