Trajectória de um repórter que se tornou referência nacional

De vendedor de sacos plásticos nos mercados informais de Luanda a jornalista premiado e quadro da Televisão Pública de Angola (TPA), Cândido Calombe construiu uma trajectória marcada por resiliência, superação e compromisso com a comunicação social.

 

Filipe Calombe Cândido Inácio, angolano, nasceu a 7 de Julho de 1985, na comuna do Coxi, município de Kibaxe, província do Bengo. Filho de Inácio Cândido e de Fernanda Calombe N’guba, ambos camponeses, perdeu o pai aos dois anos de idade, vítima de doença.

Criado apenas pela mãe, de quem guarda “memória de uma educação rigorosa e comprometida com o futuro”, teve na família o principal suporte para a sua formação pessoal e académica.

Em 1996, mudou-se para Luanda em busca de melhores condições de vida. Na capital, enfrentou dificuldades para ingressar no sistema de ensino, tendo sido acolhido pela irmã, Margarida Inácio, que, devido às limitações do agregado familiar, não conseguiu matriculá-lo numa escola.

Perante o contexto adverso, iniciou-se no comércio informal, vendendo sacos plásticos nos mercados dos Kwanzas, Asa Branca e, posteriormente, no extinto Roque Santeiro, então considerado um dos maiores mercados a céu aberto de África.

“Comecei a trabalhar muito cedo para sobreviver. Vendia sacos plásticos, fazia pequenos serviços e até ajudava no transporte de passageiros”, recorda.

Ainda criança, desempenhou várias actividades, incluindo o carregamento de viaturas e o trabalho como cobrador de táxi em diferentes rotas de Luanda, experiência que, segundo afirma, lhe permitiu adquirir “lições importantes de vida”.

Após mais de quatro anos nessa actividade, decidiu regressar aos estudos. Em 2001, matriculou-se na sexta classe, embora de forma irregular, situação que o obrigou a abandonar a escola no final do ano lectivo.

Determinando a prosseguir, voltou a frequentar aulas na Escola Augusto Ngangula, onde, mesmo sem matrícula formal, destacou-se como delegado de turma e activista social.

O interesse pelo jornalismo surgiu ainda nessa fase, quando frequentou um curso básico na Igreja Católica do Bom Pastor, no Kikolo. “Foi aí que comecei a perceber que queria comunicar e contar histórias”, afirma.

Sem recursos, encontrou formas alternativas de se inserir no meio. Participou num seminário sobre reforma educativa no então Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL), fazendo-se passar por colaborador de um boletim informativo.

“Fui com medo, porque a sala estava cheia de grandes nomes do jornalismo e responsáveis do sector da Educação, mas decidi arriscar”, conta.

No final do evento, recebeu um valor monetário que lhe permitiu tratar da documentação pessoal, incluindo o Bilhete de Identidade, passo decisivo para retomar oficialmente os estudos.

Em 2005, iniciou estágio no programa “A Voz do Sambila”, da Rádio Luanda, sob orientação de Pascoal Manuel Ngonga e apresentação de José Camangula. Posteriormente, ingressou na Rádio Ecclésia, onde integrou o programa “Luanda Escolar”, coordenado por Walter Cristóvão, a quem considera “pai profissional”.

“Foi ele quem me deu as bases e acreditou em mim”, reconhece.

Em 2006, ingressou na Rádio Despertar, onde se destacou como repórter, chegando a chefe adjunto de produção. Participou na criação e reestruturação de programas, além de cobrir acontecimentos marcantes, como as Eleições Gerais de 2008.

Após deixar a estação em 2009, enfrentou um período de dificuldades até ser convidado a trabalhar no Uíge, onde integrou a Televisão Pública de Angola (TPA). Durante onze anos, exerceu funções de chefia de conteúdos, enfrentando desafios profissionais, incluindo polémicas relacionadas com prémios de jornalismo.

Apesar dos obstáculos, destacou-se pela dinamização de iniciativas como o projecto “Triângulo de Conhecimento” e acções sociais junto de comunidades vulneráveis.

Em 2019, foi nomeado director do Centro de Produção da TPA no Zaire. Dois anos depois, venceu o Prémio SADC 2022, na categoria de televisão, com uma reportagem sobre o rio Zaire.

Actualmente, exerce funções como chefe da Editoria Política da TPA e é um dos apresentadores do programa “Ecos e Factos”.

Formado em Direito pela Universidade Kimpa Vita, defende maior seriedade na implementação das políticas culturais no país. “É necessário colocar pessoas que amam a cultura nos cargos de decisão”, sublinha.

Para o jornalista, o desenvolvimento nacional passa por políticas públicas inclusivas. “É possível construir um país com menos desigualdades e mais oportunidades para todos”, afirma.

Apaixonado pelo desporto, sobretudo futebol, e envolvido em acções filantrópicas, lidera iniciativas juvenis de apoio social em várias regiões do país.

Cândido Calombe deixa uma mensagem de incentivo à juventude:

“Deixar o mundo melhor do que o encontramos é o nosso maior desafio. Para os jovens de origens humildes, estudar deve ser prioridade. É preciso aprender, ouvir os mais experientes e nunca desistir.”

= A NOTÍCIA COMO ELA É =

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

TÓPICOS

Related Articles