O jornalista Vasco da Gama manifestou preocupação com o que considera ser a baixa qualidade do género comentário nos órgãos de comunicação social angolanos. A posição foi tornada pública num texto publicado na sua página oficial numa rede social e amplamente partilhado por internautas.
Antigo responsável pelo género opinião do jornal Jornal O Crime, o profissional afirmou não compreender a “reforma” de jornalistas de qualidade inquestionável por parte de determinados órgãos, numa altura em que o sector enfrenta, segundo disse, “um problema antigo”, ligado à escassez de comentaristas e analistas qualificados.
Ao referir-se a um programa televisivo que analisava a guerra envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos, Vasco da Gama chamou a atenção para o nível dos intervenientes. “O que mais chama atenção neste programa televisivo é o nível e a qualidade dos analistas e/ou entrevistadores”, observou.
O jornalista recordou ainda que aborda esta problemática na sua obra A Opinião que Faz Opinar, defendendo critérios mais exigentes para o exercício da análise. “A analista não pode ser qualquer um. Não pode ser para quem saiu ou entrou ontem na sua área de actuação, com o devido respeito”, afirmou.
“Jornalista defende valorização de profissionais experientes e questiona afastamento de quadros seniores das redações”
Para o também jurista de formação, a análise jornalística deve ser conduzida por profissionais experientes. “Tem de ser o mais experiente. Não se faz um bom analista em um dia. No jornalismo, a análise ou o comentário não pode ser para os ‘jovens’ jornalistas”, sustentou. E acrescentou: “A análise e comentário tem de ser para os ‘velhos’ das redações. Aqueles que, por cá, andamos a mandar para a reforma e nos desfazemos deles”.
No seu entendimento, é esse o modelo adoptado pelos grandes canais internacionais, onde os quadros mais experientes assumem o papel de analistas. O jornalista lamentou, por isso, o afastamento de figuras como Reginaldo Silva, Luísa Fançony, Gustavo Silva e Graça Campos, que considera referências da comunicação social angolana.
“Dói-me o coração ver essa geração quase toda fora do circuito do jornalismo normal, quando deveriam ser os nossos actuais analistas e comentadores principais, fruto da experiência acumulada e da maturidade profissional”, declarou, admitindo, no entanto, que a forma como a classe é tratada e como se trata internamente nem sempre favorece a permanência desses quadros nos órgãos.
Vasco da Gama criticou ainda a prática de se convidar estudantes ou recém-licenciados para comentar matérias complexas, sobretudo no domínio das relações internacionais. “Não se pode fazer análise de qualidade sobre relações internacionais com estudantes ou recém-licenciados do sector, muito menos com jornalistas não especializados, como fazemos aqui, com frequência”, frisou.
Outro aspecto que destacou foi a diferença entre “jornalismo de análise” e “análise no jornalismo”, temática também desenvolvida no seu livro.
Para o autor, é essencial distinguir jornalistas que fazem da análise a sua área principal de actuação de técnicos que, não sendo jornalistas, comentam assuntos trazidos ao espaço mediático.
“Sabe diferente”, concluiu.