Camarada Deputado,
As suas declarações sobre os chamados “partidos satélites” revelam mais frustração política do que lucidez estratégica. É sempre mais fácil acusar terceiros de desviar o foco do debate do que assumir, com honestidade, as próprias falhas estruturais e estratégicas dentro da UNITA.
Os partidos não nascem por capricho. Nascem porque existem cidadãos e grupos que não se sentem representados. Nascem porque há exclusão, há falta de abertura, há incapacidade de integrar a diversidade real da sociedade angolana. Quando um partido falha em agregar, inevitavelmente surgem alternativas.
A questão central não é a existência de novos partidos. A questão central é: por que razão continuam a surgir?
Será que todos estão errados — ou será que o problema está na forma como a UNITA se posiciona, se organiza e se relaciona com os próprios angolanos?
A experiência mostra que muitos cidadãos que se aproximaram da UNITA, com esperança de inclusão, acabaram confrontados com barreiras invisíveis, com desconfiança interna e com uma cultura política que, em vez de integrar, afasta. Muitos foram questionados não pelo que pensam ou pelo que podem contribuir, mas pela sua origem, pela sua identidade e pelo seu percurso.
Um partido que pretende governar Angola não pode pensar como se ainda estivesse numa realidade fechada. Angola é diversa, urbana, jovem e exigente. Não aceita mais estruturas rígidas, nem culturas políticas que criam centros de pertença exclusivos.
Relativamente à Frente Patriótica Unida, é legítimo questionar por que razão não se consolidou plenamente como alternativa unificada. A unidade política exige mais do que discursos; exige também capacidade real de partilha, renúncia estratégica e construção colectiva. Nenhum projecto comum sobrevive quando uma das partes não demonstra flexibilidade suficiente para construir um verdadeiro sentimento de pertença colectiva.
Acusar outros partidos de serem “satélites” não resolve o essencial. Porque a existência de novos partidos não enfraquece a democracia — pelo contrário, revela que há cidadãos que procuram espaços onde se sintam representados e respeitados.
O verdadeiro desafio não é criticar quem existe. É perguntar por que razão continuam a surgir.
Enquanto não houver uma mudança profunda de postura, enquanto não houver uma cultura política verdadeiramente inclusiva, enquanto não houver capacidade de integrar sem reservas, Angola continuará a assistir ao surgimento de novas forças políticas.
Não por manipulação. Mas por necessidade.