Nandó e o espelho do poder: uma morte que interpela os vivos – Crisóstomo Tchipiaka (Horácio dos Reis)

A morte de Fernando da Piedade Dias dos Santos, o “Nandó”, antigo Presidente da Assembleia Nacional, não encerra apenas um ciclo biográfico. Ela abre, de forma quase irónica, um debate profundo sobre poder, Estado, reconciliação e legado em Angola. Em África, ensina a sabedoria ancestral, quando um ancião morre, uma biblioteca arde. No caso de Nandó, o incêndio não é silencioso: ele ilumina contradições, expõe hipocrisias e lança um espelho incômodo aos que hoje governam.

Por: Crisóstomo Tchipiaka (Horácio dos Reis) | Director-geral da Rádio Despertar

Fernando da Piedade dos Santos foi quase tudo o que se pode ser no Estado angolano. Comandante-Geral da Polícia Nacional, Vice-Ministro e depois Ministro do Interior, Chefe dos serviços secretos, Vice-Presidente da República, Primeiro-Ministro, Presidente da Assembleia Nacional. Um homem do núcleo duro do poder. Um produto acabado do Estado securitário, forjado nos tempos em que a lógica da sobrevivência política se confundia com a lógica da repressão.

Era conhecido como homem de mão rija, braço de ferro, radical nas grandes divergências. Não concedia espaços com facilidade, sobretudo nos períodos mais tensos da vida política nacional. Tinha um sorriso peculiar, quase cínico, carregado de sarcasmo, que para muitos soava a arrogância. A sua postura intimidava. Para quem não o conhecia de perto, parecia distante, altivo, impermeável.

Mas a morte tem um estranho poder pedagógico: revela o que a vida política tentou esconder. As notas de condolências vindas da oposição, algumas sinceras, outras constrangidas, mas ainda assim reveladoras, desenham um retrato que contrasta com o estereótipo. Surge, dessas vozes improváveis, a imagem de um homem que, nos bastidores, sabia ouvir. Um político que dialogava. Que recebia adversários. Que não se sentia diminuído por escutar opiniões contrárias, desde que estas fossem sustentadas por ideias e argumentos.

Esse detalhe é essencial. Porque ele desloca o debate do passado repressivo para a maturidade política adquirida com o tempo. Nandó parece ter compreendido algo que muitos no poder hoje se recusam a aceitar: o Estado não é propriedade privada, nem o contraditório é crime. O consenso não é fraqueza; é método. O diálogo não reduz o governante; engrandece-o.

E é aqui que a sua morte se torna politicamente incômoda.

Num país onde o discurso oficial fala insistentemente de reconciliação nacional, mas a prática quotidiana é de exclusão, perseguição simbólica e intolerância à crítica, o legado implícito de Nando funciona como acusação silenciosa. Porque, paradoxalmente, um homem moldado no aparelho duro do Estado acabou por ser lembrado, no fim, como alguém que construía pontes. Já outros, que chegaram ao poder embalados pela promessa de abertura, transparência e reforma, hoje são vistos como fechados, arrogantes e surdos.

O contraste com o atual Presidente da República é inevitável e politicamente explosivo.

João Lourenço, que ascendeu ao poder com a aura do reformador, do homem da viragem histórica, parece ter-se deixado consumir pela vertigem do poder absoluto. Confunde crítica com ataque pessoal. Divergência com traição. Fiscalização com conspiração. Governa mais com ressentimento do que com visão de Estado. O diálogo tornou-se exceção; a intolerância, regra.

A oposição, que deveria ser parceira institucional no fortalecimento da democracia, transformou-se em alvo preferencial. O líder opositor, que poderia ser o seu maior aliado na consolidação do Estado democrático, passou a ser tratado como inimigo a abater com todos os meios do aparelho estatal. Não há disfarce. O ódio transparece. A compostura presidencial esvai-se. A liturgia republicana foi abandonada: nem felicitações públicas, nem gestos mínimos de elevação institucional.

Na tradição africana, diz-se que o rei não grita; quem grita é o mensageiro inseguro. O governante que fala demais, que reage a tudo, que persegue sombras, revela fragilidade. Torna-se refém da bajulação e a bajulação, como gelo ao sol, derrete rapidamente quando o poder se aproxima do fim.

E o fim aproxima-se. Pela lei natural da vida e pelo calendário político, João Lourenço está mais próximo da saída do que da entrada. Aos setenta e mais alguns anos, resta-lhe pouco tempo para escolher que nome deixará na história: o do estadista que corrigiu o rumo ou o do governante que se fechou em si mesmo, rodeado de auxiliares nefastos, tóxicos, especialistas em intriga e exclusão.

Ainda há tempo. O poder que hoje concentra pode ser usado para reconciliar em vez de dividir, para ouvir em vez de punir, para construir em vez de retaliar. Mas isso exige um gesto raro: humildade. Exige, também, livrar-se dos auxiliares nefastos que alimentam a lógica do confronto permanente: os Mialas, os Garcias, os Massanos e tantos outros que transformaram o Estado em trincheira e a governação em vingança. Essas figuras não constroem legado; constroem ressentimento. Exige compreender que Angola não é património exclusivo de um partido, nem herança de um grupo.

A morte de Nandó deixa esse recado. Um recado duro, silencioso, mas profundamente africano: o verdadeiro poder não está na força, mas na capacidade de escutar; não está na vingança, mas na reconciliação; não está no medo que se impõe, mas no respeito que se constrói.
Os mortos já não precisam provar nada. Os vivos, sim.

 

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