O fenómeno é conhecido em Angola como a “Febre da Micha”, um subproduto da economia informal e da ineficiência dos serviços públicos.
Por: Jorge Baptista
Ser “micheiro” tornou-se uma estratégia de sobrevivência para milhares de cidadãos, especialmente jovens, que atuam como intermediários informais para agilizar processos ou vender bens de difícil acesso.
As “Michas” tornaram-se num movimento que domina o quotidiano de muitos Angolanos.
A opção pelas michas não é, na maioria das vezes, uma escolha de carreira, mas uma resposta a falhas estruturais. Podemos analisar quais os fatores que alimentam este fenómeno:
Excessiva Burocracia e Demora: Quando o governo não paga um serviço feito por uma entidade privada ao estado, quando um passaporte, uma carta de condução, uma licença de construção, o acesso ao ensino público, o acesso ao emprego público ou um alvará demora meses para sair pelos canais oficiais, o micheiro surge como a “solução rápida”. Ele cobra um valor extra (a micha) para “facilitar” o processo junto de quem decide.
Desemprego e Informalidade: Com cerca de 90% dos jovens no mercado informal, a falta de empregos que exijam produtividade real empurra as pessoas para a intermediação. É mais rápido ganhar uma comissão hoje do que esperar por um emprego formal que talvez não chegue.
Custo de Vida e Inflação: A perda do poder de compra do Kwanza faz com que o salário mínimo seja insuficiente. Para muitos funcionários públicos, facilitar uma “micha” torna-se uma forma de complementar o rendimento mensal.
A “Cultura da Gasosa”: Existe uma normalização social do suborno e da gratificação. O “micheiro” é visto, por vezes, não como um entrave, mas como um “desenrascador” necessário num sistema bloqueado.
O Impacto na Economia Nacional : Embora resolva o problema imediato do indivíduo, o fenómeno é altamente prejudicial para o país.
Consequência Impacto Real : Fuga de Impostos As transações de “micha” não geram receitas para o Estado investir em saúde ou educação sectores importantes para o desenvolvimento.
Baixa Produtividade : Em vez de produzir bens ou serviços (agricultura, indústria), a força de trabalho foca-se em “vender facilidades”.
Corrupção Institucional Alimenta uma rede onde o serviço público só funciona se houver um pagamento extra, prejudicando o cidadão mais pobre.
Insegurança Jurídica Afasta o investimento estrangeiro sério e até o nacional, que não quer operar num ambiente onde as regras dependem de intermediários e favores.
A transição deste modelo para uma economia de valor requer não apenas a fiscalização, mas a digitalização dos serviços públicos (para eliminar o intermediário humano) e a criação de incentivos reais para a produção nacional.
Na entrevista que concedi ao Novo Jornal aos 11/ 10/ 2026, tentei alertar para a necessidade da elevação da consciência colectiva sobre o crescimento exponencial dos micheiros até no sector público.
Essa minha afirmação na altura alertava para um dos maiores problemas estruturais de Angola, a institucionalização da intermediação parasita.
Quando se diz que o sistema “fabrica micheiros”, a crítica é direcionada a um modelo de governação e de mercado onde o lucro não vem da inovação ou da produção, mas sim da proximidade ao poder político.
Aqui estão os pontos fundamentais que explicam como este fenómeno se enraizou:
1. O Estado como o Único Grande Cliente. Em Angola, o Estado é o maior (e por vezes o único) motor da economia. Isso cria uma dependência perigosa:
As empresas não competem pela qualidade do produto, mas pela “cunha” ou pelo acesso ao decisor.
Quem consegue o contrato não é necessariamente quem trabalha melhor, mas quem sabe “michar” (subornar ou intermediar) o processo.
2. A Inversão de Valores: Rent-Seeking vs. Produção. O fenómeno descrito por mim referia-se ao conceito económico de Rent-Seeking (procura de renda).
Em vez de criar valor (ex: fabricar sapatos, móveis, vestuário, cultivar milho, mandioca, feijão, batata doce, banana pão, explorar o sector das pesca, da transformação alimentar…), o cidadão ou o empresário foca-se em capturar uma fatia do Orçamento Geral do Estado (OGE) através de contratos sob faturados ou comissões.
Resultado: O “micheiro” de colarinho branco torna-se mais próspero do que o industrial, o que desincentiva qualquer pessoa de investir em setores produtivos reais.
3. A “Micha” no Setor Público (A Gasosa Institucional). No setor público, a “micha” deixou de ser apenas a gratificação por fora para se tornar parte do modus operandi:
Os bloqueios propositados: Funcionários criam dificuldades burocráticas artificiais para vender a facilidade logo a seguir.
O “Direito de Assinatura”: Onde a simples função de assinar um documento que é direito do cidadão passa a ter um custo de mercado informal.
Consequências desta “Fábrica de Micheiros” Área Impacto Negativo
Educação Jovens perdem o estímulo para estudar, pois veem que o sucesso vem do “esquema” e não do mérito.
As PME legítimas morrem porque não conseguem competir com empresas de “fachada” criadas apenas para ganhar concursos.
Custo de Vida Tudo fica mais caro, pois o valor da “micha” é sempre repassado para o consumidor final.
O Círculo Vicioso. Como afirmei, ao potenciarmos negócios ligados estritamente ao Estado sem transparência, estamos a dizer à sociedade que “quem trabalha não tem, quem micha é que vive”. Isso mata o patriotismo económico e transforma a economia numa selva de intermediários.