Uma reflexão histórica e filosófica sobre poder, consciência e destino político em Angola.
Fonte: Dinis Serrote (Investigador e Docente Universitário)
A história das nações não é apenas o resultado da acção daqueles que governam, mas também da influência profunda daqueles que despertam consciências. Há uma diferença essencial entre o governante e o despertador.
O governante ocupa o poder institucional; o despertador ocupa o espaço invisível da consciência colectiva. Um dirige estruturas; o outro transforma mentalidades. Um constrói o presente visível; o outro molda o futuro invisível. Esta distinção não é apenas política; é filosófica, histórica e, em muitos casos, espiritual.
Em Angola, esta dualidade manifesta-se de forma particularmente clara através das trajectórias do MPLA e da UNITA, dois movimentos que emergiram do mesmo solo histórico, mas que carregaram missões distintas no processo de formação da consciência nacional e da estrutura do Estado.
O MPLA consolidou-se como força governante. Independentemente dos erros que se possam cometer, tornou-se o instrumento de direcção do Estado, assumindo o encargo da estabilidade institucional. Governar implica garantir continuidade, assegurar ordem, tomar decisões dentro da imperfeição própria da condição humana.
O governante é, acima de tudo, o administrador da realidade concreta. Por outro lado, a UNITA, representa um fenómeno que ultrapassa a mera disputa pelo poder formal., uma força de mobilização profunda, capaz de despertar sentimentos de pertença, resistência e consciência histórica. Pois sua força não reside na capacidade de governar estruturas existentes, mas na capacidade de criar significado onde há silêncio. Para compreender esta distinção, é necessário recorrer não apenas à ciência política, mas também à filosofia da história.
O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel afirmava que a história é o processo através do qual a consciência se torna consciente de si mesma. Neste sentido, há figuras históricas cuja missão não é governar, mas despertar essa consciência.
São instrumentos de transição, não necessariamente de consolidação. Também Max Weber, ao analisar as formas de autoridade, distinguiu entre autoridade racional-legal e autoridade carismática. A autoridade racional-legal sustenta os governos e as instituições. A autoridade carismática, por sua vez, desperta homens, transforma percepções e mobiliza energias colectivas.
A liderança carismática não depende das instituições; ela nasce da necessidade histórica de despertar. pois a UNITA enquadra-se, para muitos, nesta categoria de liderança carismática e mobilizadora. A sua presença histórica produziu um fenómeno psicológico e social profundo: o despertar de consciências políticas, culturais e identitárias.
A própria tradição bíblica confirma esta distinção entre governantes e despertadores. João Batista não governou Israel, mas despertou o povo para uma nova consciência espiritual: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor.” (Mateus 3:3) João não era o poder institucional; era o anúncio de uma transformação interior.
O profeta Jeremias também não governou, mas foi escolhido para despertar nações: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei por profeta.” (Jeremias 1:5) A sua missão não era estrutural, mas consciencial. Até Jesus Cristo recusou o poder político directo: “O meu reino não é deste mundo.” (João 18:36) Ele compreendia que despertar o espírito era mais duradouro do que governar territórios.
Esta distinção ajuda a compreender uma verdade histórica muitas vezes ignorada: nem todos os líderes nascem para governar.
Alguns nascem para despertar. E despertar é uma função mais profunda do que governar, porque governar actua sobre o presente, enquanto despertar actua sobre o tempo. Até os símbolos políticos reflectem esta realidade. Os símbolos não são meros elementos gráficos; são representações de missão histórica. Os símbolos do MPLA expressam estabilidade, continuidade e institucionalização.
E os símbolos da UNITA expressam ruptura, questionamento e mobilização. Movimentos que nascem como forças de despertar carregam símbolos de resistência, de questionamento e de mobilização psicológica. Esses símbolos são eficazes para acordar consciências, mas nem sempre são naturalmente concebidos para sustentar a estabilidade institucional necessária ao exercício prolongado do poder governativo. Isto não diminui o seu valor histórico. Pelo contrário, confirma a sua missão original. A história demonstra que os despertadores são essenciais.
Sem eles, os povos adormecem. Sem eles, não há questionamento. Sem eles, não há evolução da consciência colectiva. Mas também demonstra que despertar e governar são funções distintas. O governante estabiliza. O despertador transforma. O governante administra a realidade. O despertador redefine o significado da realidade. O governante pertence à ordem institucional.
O despertador pertence à ordem histórica. UNITA, independentemente das interpretações políticas divergentes, é uma marca que ultrapassa a governação formal. A sua influência reside no domínio da consciência histórica. Ele tornou-se, para muitos, não apenas uma força política mas um fenómeno de despertar colectivo.
E a história ensina uma verdade profunda: o poder institucional é limitado pelo tempo, mas o poder de despertar consciências atravessa gerações.
Porque governar é exercer autoridade sobre estruturas. Mas despertar é exercer autoridade sobre a própria história. E enquanto os governos pertencem ao presente, os despertadores pertencem à eternidade da memória colectiva. Quem desperta nunca poderá governar, se governar qual será o nome da rádio despertar que é um símbolo de mobilização?