Jornalista da Rádio Ecclésia questiona conceito de desenvolvimento face à crise no acesso à água potável

Denúncias feitas por ouvintes no programa Radar Ecclesia, da Emissora Católica de Angola (Rádio Ecclésia), reacenderam o debate em torno da falta de acesso à água potável em vários bairros do país, sobretudo na capital, Luanda.

Na sequência dessas denúncias, a jornalista da Rádio Ecclésia, Joana Zunguila, usou a sua página oficial no Facebook para manifestar indignação com aquilo que considera ser a falta de sensibilidade dos decisores das políticas públicas face às dificuldades enfrentadas pelas populações.

Sob o tema “Maka ó Menhya”, a profissional da comunicação social procurou expor o dilema vivido por milhares de famílias angolanas, especialmente aquelas que continuam sem acesso regular à água potável da rede pública, apesar de Angola ser um país rico em recursos hídricos.

“Um povo condenado à sede, numa terra onde a água superabunda. O paradoxo angolano”, escreveu a jornalista.

Para ilustrar a dimensão do problema, Joana Zunguila recorreu a várias questões retóricas, entre as quais se destaca a interrogação sobre o verdadeiro significado de desenvolvimento adotado pelo Executivo.

“Mas afinal, qual é o conceito de desenvolvimento adotado pelo Governo?”, questionou.
A também jurista defende que, num Estado que se pretende funcional e orientado para o bem-estar do cidadão, não é compreensível que, ao longo de décadas, as populações continuem a enfrentar os mesmos problemas estruturais, sobretudo no acesso a bens essenciais como a água potável.

Recordando a sua infância, Zunguila partilhou memórias do bairro do Golfe, Avó Kumbi, nos conhecidos prédios dos cubanos, concretamente no chamado “prédio dos Texas”.

“Lembro-me bem de que, apesar das dificuldades da época, havia momentos de alegria entre os moradores quando a água chegava”, relatou.

Segundo a jornalista, o simples grito de “Águaaa! Éhhh águaaaa!” ecoava como um sinal de alívio e celebração entre os residentes. Contudo, na sua avaliação, a realidade atual é ainda mais preocupante.

Ela considera paradoxal que, atualmente, mesmo em Luanda, esse grito já não se faça ouvir em muitos bairros, sobretudo entre as novas gerações, não por haver abastecimento regular, mas porque a água simplesmente nunca chegou.

“Não se trata de cortes no abastecimento, mas de uma ausência estrutural e persistente”, sublinhou.

Na sua reflexão, Joana Zunguila defende que o desenvolvimento deve ser analisado também numa perspetiva geracional.

“Senhores governantes, o desenvolvimento também se mede de forma geracional. Não é aceitável que, numa mesma província, cidadãos continuem a viver exatamente as mesmas dificuldades que os seus avós enfrentaram, ou, em alguns casos, condições ainda mais degradantes, no acesso a serviços básicos como água potável, saneamento, saúde e energia”, lamentou.

A jornalista apelou, por isso, a uma reflexão profunda sobre o conceito de desenvolvimento social que orienta as políticas públicas no país.

“Urge uma revisão profunda do conceito de desenvolvimento social que orienta as políticas públicas”, defendeu.

Zunguila manifestou ainda preocupação com a proliferação de programas e projetos lançados ao longo dos anos com o objetivo de garantir o acesso à água potável às populações, entre os quais citou o PROÁGUA, o Programa Água para Todos, o Projeto + Água + Vida, a planta de dessalinização da Península do Mussulo, entre outros.

Segundo a jornalista, muitos desses projectos fracassaram ou apresentaram resultados muito aquém do anunciado, apesar de terem consumido biliões de kwanzas dos cofres do Estado.

“São recursos que pertencem a todos nós”, frisou.

Para a comunicadora, embora se reconheça algum nível de desenvolvimento, este está longe de responder às necessidades fundamentais da maioria da população.

“Muito sinceramente, devemos concordar que este desenvolvimento não acompanha sequer em 50 por cento as necessidades fundamentais das populações”, afirmou.
Diante desse cenário, Joana Zunguila voltou a questionar a orientação das políticas públicas.

“Qual é, afinal, o conceito de desenvolvimento que orienta a ação governativa?”, concluiu, acrescentando, em tom crítico:
“Mas ainda tivemos água para fazer o chá”.

= A NOTÍCIA COMO ELA É =

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

TÓPICOS

Related Articles