Actualmente, muitos jornalistas angolanos, por falta de condições financeiras dignas, acabam por migrar para a política. Não por paixão ideológica, mas por necessidade concreta.
Fonte: Mido Dos Santos
A geladeira vazia não entende códigos deontológicos.
Alguns tornam-se assessores de imprensa. Outros secretários provinciais. Outros entram diretamente em estruturas partidárias.
A caneta, que antes perguntava, passa a responder. O bloco de notas, que registrava contradições, agora organiza justificativas.
O problema não é sobreviver — todos precisam de comer. O problema é que essa travessia mistura jornalismo com militância, e nesse cruzamento perigoso o jornalismo perde. Perde independência. Perde credibilidade. Perde a função essencial de fiscalizar o poder.
Quando o jornalista passa a depender do poder, deixa de questioná-lo. E quando deixa de questionar, o jornalismo transforma-se em propaganda: muda o tom, muda o silêncio, muda o lado da verdade.
Essa realidade mancha a profissão. Mas não apenas por culpa individual. Mancha porque há salários baixos que empurram consciências, falta de proteção laboral que fragiliza princípios, ausência de políticas sérias para a comunicação social e, pior ainda, a normalização do “jornalista-funcionário político”.
Assim, o país vai ficando com menos perguntas e mais comunicados. Menos investigação e mais elogios oficiais. O jornalismo, que devia ser farol, vira espelho do poder — reflete o que lhe mandam mostrar.
E no fim do dia, quando a caneta descansa sobre a mesa, fica a dúvida que nenhum gabinete responde: quem ainda escreve para o povo e não para o cargo?