Há um silêncio que grita na política angolana contemporânea. Não é o silêncio da paz, nem o da prudência estratégica; é o silêncio da consideração humana que se perdeu no ruído dos interesses, das vaidades e da pressa pelo poder. A ética, outrora invocada como princípio orientador, tornou-se um ornamento retórico — bonito nos discursos, ausente nas práticas.
Fonte: Germano Candimba
Observa-se, com inquietante regularidade, a normalização do desrespeito. O outro deixou de ser interlocutor para se tornar obstáculo. A divergência, que deveria enriquecer o debate democrático, é tratada como ameaça pessoal. E assim, o espaço público vai sendo corroído por uma lógica de exclusão, onde vencer importa mais do que convencer, humilhar mais do que dialogar.
A falta de consideração manifesta-se em pequenos gestos que revelam grandes falhas: promessas feitas sem intenção de cumprir, decisões tomadas sem escuta, palavras lançadas sem responsabilidade. Há uma ética mínima que sustenta a convivência humana — reconhecer a dignidade do outro, respeitar o tempo, a verdade e a memória coletiva. Quando isso se perde, a política deixa de ser serviço e passa a ser espetáculo.
Não se trata de ingenuidade moral, nem de exigir santidade aos atores políticos. Trata-se de lucidez. Um sistema político que despreza a ética enfraquece a confiança pública e compromete o futuro. Angola não carece apenas de reformas económicas ou administrativas; carece, sobretudo, de uma restauração ética que devolva humanidade ao exercício do poder.
A política é feita por pessoas e para pessoas. Quando esse princípio é esquecido, instala-se a indiferença, e a indiferença é o terreno fértil da injustiça. Recuperar a consideração humana não é um luxo moral; é uma necessidade estratégica para a estabilidade e o progresso do país.
Enquanto cronista e cidadão, insisto: a ética não é fraqueza. É força silenciosa. E sem ela, qualquer vitória política é apenas aparente, porque se constrói sobre a erosão do que nos mantém humanos.
—–