
No meu primeiro estágio na Rádio Ecclesia, em Novembro de 2005, encontrei na emissora um verdadeiro elenco de luxo, composto por grandes nomes do jornalismo angolano, entre eles João Pinto, Gabriel Veloso, Benedito Kayela, Margarete Nanga, Josefina Komba, Esperança Gaspar, Vanda Carvalho, Siona Júnior Bravo da Silva e Manuel Vieira, entre outros profissionais de reconhecida competência.
Isidro Chiteculo e Adão Tiago eram os colegas mais próximos da minha faixa etária. Contudo, foi ao jornalista Alexandre Cose, conhecido por Alexis de Jesus, que foi atribuída a responsabilidade de começar a levar-me às reportagens institucionais.
Foi com ele que entrei, pela primeira vez, na Assembleia Nacional, para a cobertura da sessão plenária que aprovaria o Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2006.
Daquele dia guardo dois episódios marcantes. O primeiro foi o rigoroso protocolo de entrada na “Casa das Leis”. Eu nem sequer havia levado o Bilhete de Identidade. O “kota” aproximou-se dos seguranças e, depois, do pessoal da recepção. Cinco minutos depois, regressou, segurou-me pela mão e entrámos no hemiciclo como se nada tivesse acontecido.
O segundo episódio ocorreu durante a sessão plenária, quando houve uma interrupção de energia eléctrica na Assembleia Nacional. Os deputados foram dispensados para um intervalo, enquanto se procurava uma solução alternativa.
Durante a pausa, entrevistei o deputado Gerónimo Wanga, que me foi apresentado pelo deputado Sabino Sakutala, o único parlamentar que eu conhecia e consegui identificar no meio da multidão.
Mais tarde, fomos informados de que a sessão seria retomada apenas às 14 horas. No regresso à rádio, em pleno engarrafamento, Alexandre Cose orientou-me:
“Puto, prepara a fita na parte em que o deputado fala da falta de um gerador alternativo em condições na Assembleia.”
Naquele momento, confesso que fiquei contrariado, porque pretendia explorar outros ângulos da reportagem. No entanto, o experiente jornalista insistiu:
“Podes explorar outros ângulos depois, mas agora a notícia é: ‘Sessão parlamentar suspensa por falta de electricidade na Assembleia’. Temos um minuto para entrar em directo no jornal. Tens algo melhor do que isso?”
A partir do seu Corolla azul-escuro, conhecido como “olho de gato”, realizámos o directo que abriu o jornal das 12 horas.
Depois do fecho da emissão, Alexandre Cose olhou para mim e deixou uma das lições mais importantes da minha formação jornalística:
“Mais novo, aprende uma coisa: a notícia nem sempre está na ordem natural do acontecimento.”
São memórias, ensinamentos e experiências que ajudaram a moldar uma geração de profissionais. Gratidão.